sexta-feira, abril 17, 2026

CHICO (PROFETA) BUARQUE: MEU GURI

"Quando, seu moço, nasceu meu rebento

Não era o momento dele rebentar

Já foi nascendo, com cara de fome

E eu não tinha nem nome, pra lhe dar

Como fui levando, não sei explicar

Fui assim levando e ele a me levar

E na sua meninice ele um dia me disse

Que chegava lá! (...)

Chega suado e veloz do batente

E traz sempre um presente, pra me encabular

Tanta corrente de ouro, seu moço

Que haja pescoço, pra enfiar

Me trouxe uma bolsa, já com tudo dentro:

Chave, caderneta, terço e patuá

Um lenço e uma penca de documentos

Pra finalmente eu me identificar, olha aí!

(...)

Chega no morro, com o carregamento

Pulseira, cimento, relógio, pneu, gravador

Rezo pra ele chegar, cá no alto

Essa onda de assalto, está um horror

Eu consolo ele, ele me consola

Boto ele no colo, pra ele me ninar

De repente acordo, olho pro lado

E o danado já foi trabalhar, olha aí

Olha aí, ai é o meu guri, olha aí

Olha aí, é o meu guri!

(...)

Chega estampado, manchete, retrato

Com venda nos olhos, legenda e as iniciais

Eu não entendo essa gente, seu moço

Fazendo alvoroço demais!

O guri no mato, acho que 'tá rindo'

Acho que 'tá lindo, de papo pro ar!'

Desde o começo, eu não disse, seu moço

Ele disse que chegava lá!"

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