"O mal estar entre a sociedade brasileira e seu
poder público, cujos primeiros sinais já foram declarados nas manifestações de
rua deste ano, tem recebido diariamente as proteínas necessárias ao seu
crescimento. O que não tem faltado é ração ao caos. Abra o jornal: enquanto uma vítima de
assassinato ainda gritava por socorro, os vizinhos cometeram o erro fatal:
telefonaram para a polícia. Claro, ninguém apareceu a tempo. A gangue do bairro
teria prestado melhor socorro, caso acionada.
Agora, se ponha no lugar do bandido: você teria
medo de assaltar uma família assistida por uma polícia que não atende ao
telefone? Digo 'assistida' porque é isto que a polícia do nosso estado faz:
assiste, enquanto a barbárie se propaga.
Em outra página, fica a cidade informada da boa
paga oferecida pela presidente Dilma Rousseff ao apoio recebido do governador
Cid Gomes à sua reeleição: há dinheiro disponível para apunhalar o parque do
Cocó com uma ponte estaiada. Aquela obra é tida como 'uma sandice' por onze
entre dez urbanistas consultados. Ela somente agravaria o problema com que se
tenta justificá-la como solução: mais fluxo, e não menos congestionamento, para
dentro da Avenida Washington Soares.
Repare. Não se trata de dinheiro jogado fora.
Pior: são recursos dedicados ao agravamento do problema. Trata-se de um
estímulo à desordem: investimentos que ampliam a necessidade de mais
investimentos no médio prazo. Uma sangria.
Enquanto o governador faz saber ao grande
público que aqui se rasga dinheiro porque sobra – com o apoio declarado de quem
antes fora contra 'tudo isso que está aí' – o sertanejo afunda nas
improvidências do previsível drama da seca.
Pensa que acabou? Veja esta. Outro santuário, já
tão adulterado, se vê ameaçado pela crença chinfrim de que o interesse do
mercado tem precedência universal. Acredite: querem levar o asfalto até a porta
do Parque Nacional de Jericoacoara.
Com isso, uma das mais famosas praias das
Américas poderá mais rapidamente pulverizar seu único patrimônio: uma relação
de possível equilíbrio entre seu bioma e uma limitada capacidade de absorver os
impactos do convívio humano. Do que a miopia do secretário de Turismo,
Bismarck Maia, o convenceu é fácil ver: deve-se extrair o maior número possível
de ovos no mais curto espaço de tempo, ainda que a isto se pague com a vida da
própria galinha. Não é pouca, a estupidez. Por fim, a presidente Dilma recebeu de sua
onerosa maioria no Congresso – prova de que ela fala grosso, mas manda pouco –
o troco por sua decisão unilateral de propor à nação uma reforma política: os
cretinos acabam de aprovar a sua versão.
Pela proposta dos parlamentares, nenhuma mudança
que pudesse ao menos de leve arranhar o bem polido metal de seus privilégios
foi sequer aventada. Ali, somente se alargam os recursos da esperteza e as
escoras da impunidade.
Mas se você sentir que poderá perder de vez a
paciência com tudo isso, talvez seja melhor ficar em casa, a menos que não se
importe em ver sua imagem estampada nos telejornais da big média como a de um
mal intencionado vândalo.
No entanto, prospera o macro vandalismo dos
homens que não usam máscaras para dilapidar o bem comum porque já vivem sob a
armadura da impunidade. Eles podem mostrar a cara: ela está fora do alcance da
justiça. Os lascados, não."
(O Blogue) Pauta Livre é cão sem
dono. Se gostou, passe adiante.
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