"Há muito tempo, alertas vem sendo dados acerca da ameaça da
legalização do aborto no Brasil, o que se constituirá num dos maiores
carmas que esta Nação pode enfrentar na sua história.
Há muito tempo benfeitores espirituais vêm nos mandando mensagens,
através de Chico, de Divaldo e de vários médiuns conceituados,
alertando-nos contra essa triste ameaça.
Há muito tempo vimos clamando, enérgica e até desesperadamente, por uma
união entre os espíritas, por um esforço por entendimento e melhores
diálogos entre os espíritas.
Há muito tempo vimos clamando para que o movimento espírita dispa-se de
toda a roupagem da hipocrisia e entenda a importância de nós espíritas,
também, participarmos ativamente das discussões políticas do nosso país,
posto que qualquer espírita lúcido, consciente e que tem o mínimo de
inteligência sabe que quem decide as leis em um país são os políticos.
Todo mundo viu o deputado Federal Luiz Bassuma, espírita, grande
bandeirante na luta contra o aborto, ser expulso do PT, o partido que
governa o país, porque recusou-se a portar-se conforme as conveniências
do partido, que sempre foi e é a favor do aborto, preferindo manter a
sua fidelidade, prioritariamente, aos princípio éticos e morais
ensinados pela Doutrina Espírita.
Recentemente, quase em desespero, tomei a iniciativa de realizar, em São
Paulo, o Primeiro Encontro Nacional de Parlamentares Espíritas,
convidando os espíritas a um estudo, um diálogo, uma troca de idéias
acerca da importância, da necessidade e da urgência do movimento
espírita, também, tratar de estudar a indicação de companheiros nossos,
preparados para também nos representar no Congresso Nacional, nas
Assembléias Legislativas, nas Câmaras dos Vereadores e na política em
geral.
A resposta foi o salão nobre da Câmara dos Vereadores de São Paulo vazio
e ficarmos, como idiotas, falando aos ventos, como uma voz que clama no
deserto.
De repente, hoje, começo a ver a minha caixa postal cheia de emails de
espíritas dizendo que 'as ações das trevas estão se fazendo presentes no
Brasil', por causa das recentes decisões tomadas em Brasília.
Meus amigos, que me desculpem o desabafo, mas estou fazendo um esforço
enorme para controlar os meus dedos no teclado do computador, para me
conter na hora de responder a esses emails.
Sinceramente, se eu fosse responder mesmo, dizendo para esses 'espíritas' o que está no fundo do meu coração, tenho certeza de que as
fragilidades e os sofismas de muitos iriam dizer que eu estaria sendo
agressivo e faltando com a caridade para com o movimento, posto que o
nível de inteligência atrofiada de alguns só consegue ver agressividade e
nunca o que há de profundo no conteúdo dos temas que tenho procurado
abordar aqui por esta tribuna.
Ainda vêm dizer, no maior cinismo do mundo, que são simples ação das trevas?
Continuamos a dizer que tudo é culpa dos obsessores, tudo é culpa das trevas?
E a nossa omissão, a nossa frieza e a nossa indiferença onde é que ficam?
Desculpem, mais uma vez, mas o que falta no movimento espírita é vergonha na cara.
Vejamos com o que muitos espíritas estão preocupados:
Em ocuparem seus tempos com escritos intermináveis combatendo a obra de
J. B. Roustaing, só porque ela traz alguns conceitos que não combinam
bem com a forma como eles entendem a doutrina. Veja bem, gente: não se
trata de obra que ensina ninguém a matar, a roubar, a praticar aborto, a
fazer tráfico de drogas, a ser estelionato e a cometer atos maléficos
ou imorais, trata-se de uma obra que apenas diz que o corpo de Jesus foi
fluídico e outras coisinhas a mais de interpretação um pouco diferente.
Em ocuparem seus tempos a atacar Carlos Bacelli, Wanderley Oliveira,
Robson Pinheiro e outros confrades, também pessoas honestas, também
homens de bem, também trabalhadores da causa espírita, só porque em seus
livros eles escrevem coisas que possam ser diferentes daquilo que nós
entendemos como verdades.
Em atacarem Ramatis, Pietro Ubaldi e outros espíritos que, nos seus
sagrados direitos de expressão, também emitirem opiniões, também fazem
colocações que não coincidem com tudo o que pensamos e da forma como
pensamos.
O nosso movimento espírita tem gente que chega ao ponto de combater
veementemente, boicotar, sabotar, proibir e até ODIAR, por incrível que
pareça, esses confrades que apenas falam algumas coisas que não
coincidem cem por cento como pensamos.
Outros palhaços, preocupados com grupos que cobram taxas em eventos
espíritas, para manter obras, em suas mentes venenosas e maldosas só
conseguem conceber como se alguém tivesse querendo 'ficar rico, à custa
da doutrina', posto que as inteligências de minhoca não conseguem ver
boa intenção em ninguém.
Perguntemos: Por que não utilizam dessa mesma energia, dessa mesma
valentia e dessa mesma determinação para lutarem na política brasileira,
contra as verdadeiras mazelas que envergonham o país?
Uai, cadê a valentia?
Só conseguem ser valentes na hora de proibir e boicotar obras de
confrades? Na hora de proibir expositores de falarem em seus centros? Na
hora de enviarem cartas ou emails reservados e sigilosos a outros
centros, carregados de venenos, recomendando que levem confrades à
fogueira ou à guilhotina?
Isto e zelo pela doutrina ou é atitude extremamente calhorda, canalha,
covarde e sem vergonha que já deveria ter sido abolida, há muito tempo,
do nosso movimento?
Se esconder atrás da hipocrisia e do falso moralismo, resumindo um
companheiro como simplesmente 'polêmico', porque está disposto ao
diálogo e ao convite a discussões de assuntos com mais profundidade e
menos sofismas, é manter um estado de calma ou é uma tremenda covardia e
ridícula omissão por incompetência para enfrentar os problemas cara a
cara?
E ainda vêm dizer, na maior cara de pau do mundo, que a iminente legalização do aborto no Brasil é simples ação das trevas?
A pior treva que existe em nosso país é a da omissão daqueles que pegam a
tribuna para falar em amor, em paz, em fraternidade, em 'deixe nascer' e
em caridades sem que, no fundo e na prática, não fazem nada disto.
Como diz o Boris Casoy: Isto é uma vergonha!
Quero pedir aos meus amigos espíritas, com todo carinho que todos são
merecedores e que tem os seus direitos de expressão, como eu tenho os
meus:
Me mandem os emails que quiserem, falando sobre tudo, dando opinião
sobre tudo, mas, pelo amor de Deus, me poupem de emails comentando esta
decisão sobre o aborto no Brasil, com esse papo furado e ridículo de que
foi simplesmente ação das trevas, porque eu não sou um espírita tão
burro assim para acreditar numa coisa desta. Isto é só o começo!
Quem viver verá, o que virá em nosso país daqui pra frente.
Por enquanto muitos espíritas estão diante apenas de um texto deste 'polêmico', mas amanhã, podem estar preparados, porque no mundo
espiritual, diante das prestações de contas que todos nós seremos
convidados, todos vamos ver quem de fato será polêmico.
Indignadamente
'O futuro do Espiritismo será aquilo que os espíritas fizerem dele'''.
Abração,
Alamar Régis Carvalho
(Texto encaminhado ao Blogue por Manuel de Jesus)